—Emfim, quem viver verá aonde isto vae parar, onde nos leva esta torrente.
—E não é preciso viver muito. Mais dia menos dia temos ahi os hespanhoes, ou então passamos a ser inglezes. Não ha que vêr; da maneira por que vão as coisas…
—Ai, pobre Portugal!—exclamou melancolicamente D. Luiz.
—Que vaes á vela—concluiu o padre.—Desde que puzeram a cabeça á roda a esta gente com liberalismos… ficou tudo transtornado. Agora todos mandam, todos fallam, e não ha quem governe. Isto de não haver um que governe… Estes patetas não se desenganam de que um paiz é como uma casa. Ora deixem á vontade os criados em uma cozinha, sem ninguem que os vigie, e verão o que vae! esperem por o jantar, que hão de achar-se servidos!
O simile fôra suggerido a frei Januario pela sua constante preoccupação.
—O que me custa é lembrar-me de que meus filhos teem de viver n'esta sociedade assim organisada. Quem sabe a sorte que lhes está reservada, aos pobres rapazes!—disse o fidalgo, suspirando com escuras apprehensões sobre a posição precaria da familia.
—Os filhos de v. exc.ª não devem transigir em caso algum com estes homens!—exclamou com vehemencia o padre—É não fazer como a sobrinha de v. exc.ª, a snr.ª D. Gabriella, que já é baroneza das feitas por elles. Quando se é fidalgo é preciso ser fidalgo.
—É bem negro o futuro que espera as casas como a nossa, e sabe Deus se em parte preparado por nós—insistia o fidalgo.—Tambem peccamos.
—Pois é uma triste verdade, mas isso não é razão para que os que nasceram n'essas casas se abaixem diante dos que nem sabem aonde nasceram. Deixe v. exc.ª medrar quanto quizer o Thomé da Herdade, que no fim de tudo sempre ha de mostrar que andou descalço em criança e que foi levar a beber o gado d'esta casa. Ha certas coisas que não dá o dinheiro.
—O Thomé da Herdade!—repetiu D. Luiz com amargura—Esse é que prospéra, os tempos estão para elle. Quem viu e quem vê aquillo!