—Ahi vens tu já com o coração—acudiu Jorge com mal reprimido despeito.—Vossês fallam no coração a proposito de tudo. E até agora então, que andavas todo influido com a tua regedoria, não te importaste com o coração, nem elle te dizia nada… Ora adeus! O coração!…
E erguendo-se da banca com certa agitação, que estava espantando Clemente, pôz-se a passeiar no quarto, e tão convulso que não conseguia preparar um cigarro, que mal sustinha nas mãos.
Clemente allegou:
—Eu não digo que isto seja uma paixão muito forte, uma paixão por ahi além; mas, resolvido a tomar estado, pensei na noiva que me conviria e lembrei-me de Bertha. É uma boa rapariga, bem educada e de alguns haveres…
Jorge cortou-lhe a palavra:
—Ah! então dize-me d'isso. Agora já entendo por que te lembraste de Bertha. Devias principiar logo por ahi. De alguns haveres! Ahi é que está a questão. Vossês são todos os mesmos a final. O interesse, o maldito interesse! Pois fazia melhor conceito de ti, Clemente; digo-te francamente que fazia de ti melhor conceito. Lá porque uma rapariga tem meia duzia de centos de mil reis, já a perseguem com proposito de casamento, já…
—Ó snr. Jorge—interrompeu Clemente, tão surprendido como vexado com o que ouvia—por quem é faça melhor opinião de mim. Não só me não lembrei de Bertha apenas pelo dinheiro, mas nem a quero perseguir. Olha quem? Eu! Se a rapariga disser que não, ou o pae, paciencia. Mas parece-me que a minha proposta não a deshonra.
Jorge principiava já a conhecer a sem-razão com que fallava, mas não podia ainda ceder totalmente ao bom senso que despertava em si. Não tinha previsto o caso, que se lhe offerecia, e sentia-se por isso irritado contra a hypothese que tão imprevistamente lhe surgira no caminho.
—Pois sim… mas…—murmurava elle, sem saber o que dissesse—mas… Bertha… Olha, se queres que te falle a verdade… Bertha não te convem.
—E porque acha?