—É a filha do Thomé da Povoa.

Estas palavras dissiparam instantaneamente toda a meia indifferença com que Jorge escutára até alli as communicações de Clemente. O estremecimento que não pôde reprimir ao ouvil-as, a subita transformação que se lhe operou na physionomia, bastariam para revelar a verdade a Clemente, se este bom rapaz não tivesse uma d'aquellas almas, onde nunca entram de subito as suspeitas, mas sómente depois de muitos e porfiados embates.

—A filha do Thomé da Povoa!—repetiu Jorge estupefacto.

—Sim—tornou Clemente, interpretando erradamente aquelle espanto—a filha do Thorné da Povoa, do Thomé da Herdade… Bertha, a que foi educada em Lisboa e que voltou ha tempos…

—Bem sei—atalhou Jorge com impaciencia—mas… Bertha…

E acrescentou quasi sem consciencia do que dizia:

—Bertha da Povoa… mas… mas como te lembraste agora de Bertha sem mais nem menos? É singular!

—Como me lembrei agora? Mas não foi agora que me lembrei. Eu já tinha penâado n'isso. É a noiva que eu proprio…

—Pois sim, mas… Como te deu logo para pensar em Bertha da Povoa? É o que pergunto.

—Ora essa! Em alguma havia eu de pensar. Se não fosse n'ella, seria em outra. Succedeu ser em Bertha. Coisas do coração…