—Mas porque é, snr. frei Januario, que nos campos da nossa casa não vejo o movimento dos outros?
A imprevista interpellação do adolescente ia entalando o padre.
—Causou-me sensação isto hoje—proseguiu Jorge.—Quem subir ao alto do outeiro da Faia, por exemplo, e olhar de lá, em roda de si, para o valle, póde marcar as propriedades da nossa casa; onde vir um campo quasi maninho, um muro a cahir, umas paredes negras, um aspecto de cemiterio, tenha a certeza de que nos pertencem esses bens.
—Não é tanto assim… É verdade que… meu rico filho, que quer? depois que os homens do liberalismo tomaram conta d'este paiz, as coisas mudaram. Quem não está por o que elles querem…
—Não vejo em que elles influam para isto, snr. frei Januario. Quem nos impede de fazer o que os outros fazem? de cultivar os nossos campos? de pôr homens a trabalhar n'essas terras incultas?
—O que os outros fazem, diz elle! Os outros… os outros… e quem são os outros? Uns miseraveis que eu conheci de pé descalço, a limpar os cavallos e a cavar nos campos d'esta casa.
—Tanto mais para admirar e para louvar o esforço que os tirou d'essa posição humilde e os elevou áquella, que hoje occupam.
—Olhem que grande milagre! Homens que não devem respeito a si mesmos, para quem todo o trabalho está bem, como não hão de enriquecer? Ora essa é muito boa!
—E os que devem respeito a si mesmos estão pois condemnados á miseria?
—Á miseria… á miseria!… Que palavra! Ora para o que lhe deu hoje! Foi febre que se lhe pegou? Se ella anda por ahi tão accêsa! O menino ainda é muito criança para pensar n'estas coisas. Coma e beba e…