Ao meio dia, porém, hora em que a baroneza costumava por suas proprias mãos servir-lhe algumas colhéres de gelêa e um calix de vinho do Porto, sentiu que lhe abriam mansamente a porta do quarto, com a mesma cautela, com o mesmo cuidado com que o fazia Gabriella.
Deu-lhe rebate o coração, e no meio dos tristes pensamentos que o acabrunhavam, fez-se um clarão de esperanças. Voltado com as costas para a porta, D. Luiz não pôde conhecer logo a pessoa que entrava, por isso perguntou com uma voz, era que se denunciava o intimo sobresalto que estava sentindo:
—Quem vem ahi?
Ninguem lhe respondeu; mas percebeu claramente o som de uns passos leves, que não podiam deixar de ser de mulher.
—Quem está ahi?—repetiu D. Luiz, fazendo um esforço para voltar-se.
Mas n'este momento parava defronte d'elle Bertha, com um sorriso nos labios, e segurando nas mãos a bandeja com o calix de vinho e a gelêa, que a baroneza costumava servir-lhe.
D. Luiz olhou para a afilhada com a expressão da maior surpreza e espanto.
—Bertha!—exclamou elle, solevantando o corpo—Bertha aqui?!
—E ha mais tempo seria este o meu logar, se não soubesse que até hoje lhe não faltavam os cuidados de que a sua doença precisa.
—E vens… vens para ficar?—perguntou o doente com uma inflexão de alegria quasi infantil.