D. Luiz pegou na carta meio tremulo e abriu-a.
Era concebida n'estes termos:
«Perdoe-me, meu querido tio, a maneira subita por que o deixo. Julguei preferivel isto, porque me faltava o animo para despedidas que talvez o affligissem mais. Espero não prolongar por muito tempo a minha ausencia. Seria conveniente que Mauricio viesse emquanto estou em Lisboa. Escrevo-lhe n'este sentido e confio em que v. exc.ª lhe dará permissão para elle vir ter commigo. Peco-lhe que me espere nos Bacellos, onde em breve conto vêl-o mais feliz e contente. Até lá tenho um presentimento de que Deus ha de providenciar para que não sinta muito a falta que eu lhe possa fazer. Conceda-me sempre a sua amizade e creia-me
Sua affectuosa e reconhecida sobrinha
Gabriella.»
O fidalgo leu e releu a carta em silencio, suspirou, e voltando-se para o padre, disse-lhe simplesmente:
—Tem a bondade de me deixar só por um pouco, snr. frei Januario?
O padre sahiu do quarto, encolhendo os hombros.
D. Luiz tornou a lêr a carta, carregando-se-lhe de mais sombria tristeza o semblante, e deixou-se cahir desalentado nos travesseiros.
E ninguem lhe ouvia aquella manhã tocar a campainha a chamar um criado para que lhe prestasse qualquer serviço que o seu estado de saude exigia, e se um ou outro, mais cuidadoso, espontaneamente se apresentava a receber-lhe as ordens, era despedido com rudeza, recahindo elle na especie de somnolencia em que depois da leitura da carta havia ficado.