Trabalhando e conversando, Bertha tinha já aquelles ares de familiaridade, que naturalmente assumem as mulheres no tracto da casa que dirigem.

Tomára posse d'aquelle terreno como de dominio seu, e dentro em pouco a influencia dos seus cuidados fazia-se já sentir na apparencia de ordem e de methodo que alli dentro vestira tudo.

D. Luiz seguia-a com olhos de satisfação. Parecia-lhe que ella só povoava o quarto.

Com que indizivel prazer a via tirar dos hombros o chale que trouxera, dobral-o e poisal-o, junto com o chapéo, no sofá proximo do leito, como se estivesse em sua casa!

A presença d'aquella joven e gentil rapariga, occupada na lida domestica, fallando-lhe com meiguice e alegria, adivinhando-lhe e prevenindo-lhe os menores desejos, satisfazia uma tão ardente e tão antiga necessidade do coração d'aquelle homem, que esquecido quasi de seus infortunios, reputava-se feliz.

Animado por Bertha, comeu com mais appetite e fallou com uma animação que lhe não era habitual.

—Mas, agora me lembra, Bertha—disse D. Luiz, como se de repente lhe occorresse uma ideia—preciso de dar ordens para a tua accommodação. Talvez o quarto de Gabriella…

—Não se incommode—atalhou Bertha.—A snr.ª baroneza parece que tinha tudo prevenido, porque me receberam como quem me esperava já.

—Mas como sabia Gabriella?…

—Pois se foi ella quem me mandou dizer que partia e que me fez sentir a necessidade de vir occupar o seu logar.