Ao sentir voltar a vida ao rosto de D. Luiz e a serenidade ao seu espirito atribulado, quasi esquecia, no enlevo em que esta observação a arrebatava, a grandeza do sacrifício, que pouco tempo antes realisára e a dolorosa violencia com que esmagava ainda no coração o affecto mais vivaz que lá nascêra.
Era grata a D. Luiz pelo bem que ella propria lhe fazia.
Um dia Bertha erguêra-se, como costumava, muito cedo para correr a quinta a fim de colher o ramo com que adornava a mesa do almoço de D. Luiz.
Todos os dias se renovava este ramo e todos os dias o fidalgo consagrava alguns momentos ao exame e á analyse das diversas flôres que o compunham.
Bertha esmerava-se muito n'esta tarefa para obter sempre effeitos novos, que merecessem as attenções e applausos do padrinho.
N'esta exploração attingia ella sempre os terminos da quinta. Chegára aquella manhã ao portão de ferro da entrada opposta á casa e trazia já na mão uma variada cópia de flores, quando lhe pareceu que alguem parava de fóra das grades a observal-a.
Voltou-se e reconheceu Clemente.
Bertha estremeceu e sentiu sobresaltar-se-lhe pouco agradavelmente o coração, á vista do seu noivo. Tão longe tinha n'aquelle instante o pensamento do futuro que a vista de Clemente lhe recordava, que a surpreza da transição foi cruel.
Demais era a primeira vez que se achava na presença de Clemente, depois do ajuste do casamento, o que sobremaneira augmentára a sua confusão.
Concentrando porém toda a sua coragem, saudou-o affectuosamente.