—Havia no meu coração um outro affecto, havia, o primeiro e unico d'essa natureza que n'elle tinha de nascer; mas não lhe causou mal o seu pedido, Clemente. Esse affecto, de que me não envergonho, nasceu, mas não podia viver. Era preciso suffocal-o. Oppunham-se-lhe tantos obstaculos, que não podia haver futuro para elle. Era como uma arvore de grandes raizes que nascesse em um vaso apertado. Nunca eu mesma me illudi com elle. Esta era a confissão que devia e queria fazer-lhe, Clemente. Julguei que poderia, sem indignidade, aceitar a sua proposta, dado que lhe fallasse lealmente, como lhe estou fallando; desde que lhe dissesse: não ha amor no meu coração para lhe offerecer, não o podia haver; estimo-o como um homem honrado e aceito para mim o destino de lhe servir de companheira na vida. É a missão de uma mulher, e eu tenho coragem de cumprir no mundo a minha missão. Amizade leal, respeito, dedicação, posso prometter-lhe, mais não, que não tenho para dar.
—Mas….—balbuciou Clemente, que não podia disfarçar a sua perturbação—mas esse homem existe?
Bertha córou instantaneamente ao ouvir a pergunta.
—Existe—respondeu, porém sem hesitar—e ama-me. Mas elle tambem sente, como eu, a necessidade de vencer este affecto. E ha de vencêl-o ou pelo menos occultal-o no coração, porque é forte. A consciencia do dever ajudar-nos-ha a ambos a vencer esta loucura. Bem vê que lhe chamo loucura. Mas deixe-me dizer-lhe, Clemente, se, depois da confissão que lhe fiz, se abriu no seu espirito uma entrada para a desconfiança, peço-lhe por piedade que desista da sua proposta, emquanto é tempo.
—Não me entendeu, Bertha. Creia que eu sei ter na devida conta a lealdade com que me está fallando, e que mais do que nunca sinto por si a maior consideração e estima. Se a escolhesse para esposa, juro-lhe que, apesar da sua confissão—não digo bem—por causa até da sua confissão, teria em si tanta confiança, Bertha, como em mim mesmo. O que me faz pensar é outra coisa. Se esse homem existe, porque é que a menina perdeu já as esperanças e quer assim tornar impossivel o que ainda o não é?
—É impossivel, é, Clemente.
—Ora é! Quem sabe? Eu não queria ser um dia o obstaculo da sua felicidade. Nem de tal me quero lembrar!
—Clemente, supponha que em vez da confissão que lhe fiz, eu lhe tinha dito apenas: Sonhei um dia com um noivo, que não se parecia comsigo, Clemente. E tão louca sou, que me ficou ainda d'aquelle sonho uma vaga saudade no coração. Por isso não m'o occupa inteiro o affecto que tenho para lhe consagrar. É assim que posso offerecer-lh'o. E agora resolva como se assim lhe tivesse fallado. Bem vê que nunca se arriscará a ser estorvo a uma felicidade… que se sonhou.
—Mas, valha-me Deus, Bertha, os sonhos que nunca sahem certos são os que se sonham a dormir… e até esses ás vezes…
—Ha-os que se sonham em vigilia menos realisaveis ainda.