—Ora adeus, amigo do trabalho, honrado, e é isso bastante para que uma rapariga como tu vá sacrificar o seu futuro e ligar a sua existencia á de um homem que não póde servir-lhe de boa companhia?!
—E porque não póde, meu padrinho? Elle é bom e delicado, dizem.
—Oh! que grandes delicadezas as de Clemente! Nem tu sabes o que vaes fazer, Bertha. Pois devéras o coração approva essa escolha?
—Não, snr. D. Luiz, não é que o coração m'a peça, porém…
—Então quem te obriga? Por acaso teu pae violenta-te?
—Tambem não; mas o padrinho sabe que nem sempre o coração é bom conselheiro. Mais vale ás vezes não esperar que elle escolha. Oh! se mais vale! Podendo-se decidir a sangue frio e antes que o coração decida, mais vale.
—O Clemente não póde ser teu marido. Tu, Bertha, tu a quem Deus concedeu qualidades tão distinctas, que melhor estarias n'essas casas nobres que por ahi ha do que algumas raparigas atoleimadas que por lá tenho encontrado, tu, que me recordas a minha pobre Beatriz, que pareces ter herdado os modos, os gostos, os sentimentos d'ella, tu has de ir casar com o Clemente! Nem quero ouvir fallar mais n'isso.
—A sua muita bondade para commigo, padrinho, é que o cega. Pois diga a que posso eu a final aspirar?
—A que podes aspirar?!—exclamou o fidalgo, a quem a exaltação de espirito, que o pedido de Bertha produzira, quasi fazia esquecer os seus principios mais radicados—aqui, n'esta terra de selvagens, não podes aspirar a mais, porque não ha quem te mereça até. Aqui nem sequer por sonhos se sabe o que é delicadeza de sentimentos, nem sequer de longe se aprecia essas nobres qualidades de coração e de espirito de que Deus te dotou, e que tu queres perder na convivencia com um homem grosseiro, e que nem póde conhecer o thesouro que deseja possuir.
—Mas, snr. D. Luiz, que outra póde ser a minha sorte? Ora diga.