D. Luiz, fazendo um gesto de despeito, respondeu com vehemencia:
—Pois bem, queres ser mulher de Clemente, não é assim? queres ir sacrificar os teus merecimentos a esse homem? queres dedicar-lhe todo o teu futuro, consagrar todos os teus pensamentos, todas as tuas aptidões aos arranjos da casa da Anna do Védor? Pois bem, faze a tua vontade. Mas escusas de vir pedir o meu consentimento. Eu não quero ficar com remorsos de ter sanccionado um disparate d'essa marca. Tu mulher de Clemente! Vossês, as raparigas, a final são todas assim, as mais ajuizadas, ou tarde ou cedo, cahem em uma loucura, como para mostrarem que são mulheres. Para que vens pedir-me conselho, se formaste o proposito de não o escutares? Anda lá, faze a tua vontade, e Deus queira que te não arrependas, quando já não fôr tempo. Tu não necessitas do meu consentimento, faze lá o que quizeres.
E D. Luiz encostou-se á mesa com gesto e movimentos de amuado.
—Porém, meu padrinho—insistiu Bertha, poisando-lhe as mãos no hombro com a doce familiaridade de filha—não era esse consentimento de má vontade que eu lhe pedia; esse não me trará felicidade, bem vê.
—Queres talvez forçar-me a dizer que approvo um casamento, contra o qual se revolta a consciencia? É boa!
—Mas pense bem e talvez que a sua consciencia não ache motivos para revoltar-se.
—Sabes que mais? Dize que amas esse homem, que sentes por elle uma inclinação irresistivel, e então eu entenderei a tua insistencia.
—Não digo, porque não diria a verdade.
—Mas então onde está essa necessidade de casamento?
Bertha sentiu que devia fallar com toda a gravidade ao padrinho para convencêl-o.