Quando no decurso de uma noite nos luz assim de subito uma ideia, em busca da qual andavamos havia muito, quando nos occorre a solução de um problema em que meditavamos, impacienta-nos o imperturbavel silencio e quietação que nos rodeia, formando tão completo contraste com o tumulto que nos vae no pensamento. Anciamos pelo dia para ter a quem communicar a descoberta, e para a examinar á luz bem clara, e desenganamo-nos de que não fomos victimas de uma illusão nocturna.

Emquanto o dia não rompe, o cerebro é irritado por aquella sua creação, como o seio materno pelo ser desenvolvido; acabado o periodo da gestação mental é necessario que a ideia venha á luz, e qualquer demora é afflictiva.

Este phenomeno psychologico passava-se em Clemente. Custou-lhe a respeitar o somno da mãe, esperando a luz do dia para lhe transmittir a descoberta que fizera.

O resto da noite passou-o volvendo-se e revolvendo-se na cama sem poder dormir. Era quasi um estado febril o seu.

Incommodára-o a ideia de que a sua pretenção á alliança com Bertha era o motivo da tristeza de Jorge, e que, sem o saber, fôra elle o importuno despertador d'aquelle sonho em que se embalavam ambos, deixando-se amar, sem pensarem no futuro do amor a que cediam. Sonho irrealisavel embora, porém Clemente não quereria ter sido quem os acordou.

Antemanhã, quando ainda a estrella d'alva despedia proxima do horizonte as suas ultimas scintillações, Clemente deixou finalmente o leito, onde não encontrára repouso, e foi passeiar para o campo contiguo á casa, aguardando o despertar da mãe.

Anna do Védor era matinal e por isso Clemente não esperou muito.

Effectivamente a vidraça do quarto em que dormia a robusta matrona abriu-se e ella bradou da janella para o filho:

—Que força de serviço foi essa que te estremunhou, rapaz?! Sume-te! Mal luzia o buraco e tu já a sarilhares por essa casa!

—Levantei-me um bocadito mais cedo e vim espairecer até aqui.