—Nem eu quero pensar n'isso para não me arrepender pelo pouco que tenho feito por aquella familia—tornava Thomé.—Se o fidalgo soubesse que o filho mais velho se agradára da minha pequena, o que havia de pensar? O que eu no seu logar pensaria. Que isto em mim fôra tudo um calculo, que procurei trazer o rapaz a minha casa, depois de mandar buscar a filha á cidade, que lh'a metti á cara, que levei a rapariga para o pé do velho com o fim de o dispôr para a approvação dos meus planos… Ó que vergonha! que vergonha! Então é que elle teria razão de me olhar com desconfiança, e quem lh'a não daria? Mas que cegueira a minha! Cegueira! Mas se elles mal se fallavam, se Jorge parecia tão occupado nos seus negocios, que a nada mais dava attenção!
—Ai, eu cá bem o suspeitava—repetiu Luiza.
—Isso não póde ser! Cada vez mais me convenço de que isso é impossivel.
—Pois digo-lhe eu que é verdade, como dois e dois serem quatro. Ora agora elles dizem que decidiram acabar a todo o custo com aquillo por causa do velho, e d'ahi veio a historia toda do casamento; mas no andar em que vão as coisas, parece-me que elles acabam mas é comsigo.
—É uma desgraça! mas que remedio? Ainda que eu cuidasse de vêr morrer-me a filha, havia de oppôr-me a esses amores. E mais depressa a recolheria em um convento…
—O que ahi vae! o que ahi vae! Ó homem de Deus, ia-lhe talvez muito mal se a filha lhe casasse com o rapaz.
—Era uma desgraça, repito. E eu nunca mais poderia olhar de frente para o fidalgo, como o fiz até agora, graças a Deus! porque então teria elle razão de me suspeitar de intriguista.
—Se a sua consciencia o não accusa, não lhe dê canceira o que os outros pensam.
—Eu bem t'o dizia, Thomé, não que tu não querias crêr!—insistia Luiza, entre pezarosa e satisfeita.
—Já me tarda vêr a rapariga para fóra dos Bacellos. Mal sabia eu quando a levei para lá, que um dia podiam vir a julgar que eu o fizesse por calculo!