—Então como vae o fidalgo? Fraquinho, hein? Emfim, snr. D. Luiz, tudo se guarda para a velhice.

—É assim, é—disse sêcamente o fidalgo.—Então a que vem aqui, Anna?

Anna do Védor percebeu a debil cordialidade com que estava sendo recebida e por isso respondeu menos affavel:

—Primeiro que tudo, vim vêl-o, como era da minha obrigação, pois não me esqueço de que já comi do pão de sua casa. Ha mais tempo teria vindo, se a minha vida me deixasse; mas sou eu só em casa, como v. exc.ª sabe, a fazer o serviço, e a idade já me vae pesando. E agora por isso vem a pêllo dizer a outra coisa que me trouxe cá. Venho saber de v. exc.ª quando é que póde dispensar a Bertha para se fazer o casamento que está justo entre ella e o meu filho.

O rosto de D. Luiz passou por differentes cambiantes de côr, e mais do que uma paixão lhe desenhou successivamente no semblante em traços fugitivos o aspecto physionomico.

—Então vem para a buscar?—perguntou elle com voz alterada.

—Não, senhor, não venho para a buscar, venho para saber de v. exc.ª quando ella póde ir.

—Ella não é minha filha. Quando quizer, que vá.

—Mau! O fidalgo não quer entender-me.

—Eu o que não quero é occupar-me d'esse casamento—replicou D. Luiz mais agastado.—Quando quizerem fazer esse disparate, façam-n'o. Levem d'ahi a rapariga, sacrifiquem-n'a á sua vontade, mas não me peçam o consentimento, porque eu estou com os pés na cova e não quero levar para a sepultura mais remorsos.