—E eu esmago-os! esmago-os a todos, se se atreverem a vir insultar-me n'estes ultimos dias de minha vida!

Anna tentou acalmar a furia do fidalgo, mas elle nem já a ouvia.

Fraqueando-lhe já a voz, tremulo, anciado, banhado em suor frio, continuava em tom cavernoso:

—Eu lhes juro que não me hão de vencer na lucta que provocaram. Quando me tiverem já usurpado a casa, seduzido os filhos e insultado o nome de minha familia, hão de ainda vergar sob o pêso das minhas maldições, porque eu acredito que ha um Deus no céo e que as pragas de um velho ludibriado teem ainda poder para attrahir as desgraças sobre a cabeça dos miseraveis que me insultam.

—Fidalgo, fidalgo, volte a si!—bradava Anna do Védor devéras consternada.

O velho, arredando-a com um movimento impetuoso, exclamou com energia crescente:

—Deixem-me! Deixem-me! Quero viver só, de hoje em diante! Só! Não quero vêr ninguem, nem filhos, nem familia! Ninguem! Cada pessoa que se aproxima de mim vem com o intento de me atormentar; cada affecto a que abro o coração transforma-se cá dentro em um veneno corrosivo! Oh! É de mais! Deixem-me! deixem-me morrer para aqui só, ninguem me appareça, ninguem me falle, deixem-me!

N'este momento a porta abriu-se e Bertha appareceu attrahida pela altercação que lhe parecêra ouvir no quarto do padrinho e perguntou assustada:

—Que é o que tem, snr. D. Luiz, o que lhe succedeu?

O fidalgo, exasperado, voltou-se com vivacidade ao ouvir-lhe a voz, e injectando-se-lhe ainda mais o rosto, bradou: