—És tu? Que queres? Vens continuar a obra que te incumbiram?! Sahe d'ahi! Sahe! Não me appareças! Não me falles! Não me faças descrêr de Deus! Não quero vêr ninguem, já disse! Deixem-me!
Bertha parou, surprendida e intimidada por aquella subita transformação nas maneiras do padrinho para com ella, e ao sahir do quarto, saltavam-lhe de sentida as lagrimas dos olhos.
—Ó fidalgo!—acudiu a Anna do Védor cada vez mais assustada pelo estado em que o via—ó fidalgo! olhe que está fóra de si! Isso que é? A pobre rapariga vae a chorar por a maneira por que a tractou. Que culpa tem ella? Coitada da pobre!
—É o que lucra quem se aproxima de um homem maldito de Deus como eu sou—respondeu o velho, deixando-se cahir na cadeira já desalentado.
—Não diga essas coisas, que até é peccado! Que motivos tem para essas furias? Olha agora! O que eu lhe disse não é para tanto. Além de que, socegue, tanto a rapariga como o seu filho Jorge teem juizo, mais até do que lhes convinha para serem felizes. Digo-lhe eu que mais depressa elles se deixarão morrer, e até parece que estão n'essa resolução, do que lhe darão o desgosto de que tanto se receia, não sei porquê. E olhe que o rapaz já não está longe de fazer a tal viagem. A não lhe agradar mais vêl-o morrer, o que o fidalgo deve fazer é…
D. Luiz mostrava não dar a menor attenção ao que a mulher dizia. O accesso de desespero passára. Com gesto e voz de abatimento interrompeu-a, perguntando:
—A pequena ia devéras a chorar?
—Podéra não. Ao rompante com que v. ex.ª lhe fallou! E sem razão alguma, porque, como eu disse a v. exc.ª, elles…
O fidalgo suspirou:
—É uma fatalidade!—disse elle a meia voz.—Pobre rapariga! De certo que não é ella culpada n'isto. Instrumento innocente nas mãos dos outros, nem ella sabe o que faz! Anna, eu preciso de estar só, peço-lhe que me deixe só.