—Mas que entendes tu de administração?

—Aprenderei. O interesse é um grande mestre. Não tiveram outro esses rusticos proprietarios, que por ahi vemos enriquecer.

Mauricio ficou pensativo.

A ideia do irmão parecia havel-o ferido profundamente. Estava-lhe achando um sabor de poesia que lhe agradava. Porque Mauricio, não tendo o caracter meditativo e o espirito analytico de Jorge, era nas coisas da vida guiado mais pela imaginação do que pela razão. Se uma causa o seduzia, adoptava-a, sem a julgar. Igualmente a rejeitaria, se á primeira intuição lhe desagradasse. Era tão facil de se enthusiasmar por o que ao principio repellira, que não se podia ter muita confiança n'aquelle ardor. Lavrava muito depressa a lavareda para ser de longa duração.

Assim aconteceu d'esta vez, pois voltando-se para Jorge, disse-lhe com uma impetuosidade juvenil:

—Dizes bem, Jorge. O nosso dever manda-nos acabar com esta vida de ocio e de inutilidade. É assim. É preciso que sejamos homens. Temos uma missão a cumprir, generosa e nobre. Trabalhemos. O trabalho traz comsigo a recompensa e os gozos. De certo deve sentir-se orgulhosa e satisfeita a alma do que trabalha, porque vê que cumpre um dever. O que se nos figura fadiga é prazer. Pois não te parece que um escriptor, por exemplo, deve ser feliz nas horas de composição? e que o artista curvado sobre os instrumentos do seu officio, e o lavrador vergado no campo, nem sequer sentem o suor que lhes corre da fronte? Tens razão, trabalhemos, a poesia visitar-nos-ha nas nossas horas de labor, e não nos deixará sentir saudades dos perdidos ocios de fidalgo.

Jorge escutava o irmão com um sorriso triste e innocentemente malicioso, e commentava com um movimento de cabeça uma e outra d'estas estrophes em honra do trabalho. Quando Mauricio concluiu, elle ponderou-lhe com a sua habitual serenidade:

—Valha-te Deus, Mauricio, que estás tu ahi a dizer? Não sonhes nem adoptes uma resolução séria, como a de que fallo, sob o dominio d'essas illusões. Vê as coisas como ellas são. O trabalho é nobre por certo, mas a poesia d'elle nem sempre a percebe quem muito de perto lhe conhece as fadigas. Não vás seduzido para a carreira do trabalho, porque cedo te desanimaria um cruel desengano. É preciso entrar n'isto guiado pela razão, e não por um enthusiasmo fugaz. O escriptor nas horas de composição, e principalmente o artista e o lavrador nas fadigas do seu mister, não teem esses gozos que fantasias; antes devem sentir muitas vezes grandes desalentos e grandes fastios. O que os estimula, mais do que a poesia, é o dever. Recompensas ha, não nego que as haja, além das materiaes. Deve haver uma certa tranquillidade de consciencia, uma ausencia de remorsos, isto de um homem poder fitar sem vergonha os que trabalham a seu lado, como se lhes dissesse: «Tambem tenho direito a viver.» Isso sim; mas o ideal, que sonhas, anda longe das officinas, das fabricas e dos gabinetes de estudo, ou se ahi penetra, é á maneira d'aquelles deuses do paganismo, que acompanhavam invisiveis os heroes que protegiam. Estarás sob a influencia d'elle, mas não o verás. Se a contemplação d'essa divindade é a recompensa que esperas, deixa-te antes ficar a montear por estas aldeias.

Mauricio sorriu, objectando ao irmão:

—És suspeito, Jorge. Tu duvidas encontrar a poesia ao teu lado, quando trabalhares, porque ainda a não viste, aonde todos a vêem, ahi por essas devezas, valles e ribeiras.