—Vi-a ainda hoje em casa de um lavrador, aonde se trabalhava; tu é que não a vias lá.
—Ah! então já confessas que ella está com os que trabalham?
—Mas não a vêem esses. Não a viu Thomé, nem nenhum dos seus criados; vi-a eu que estava de fóra.
—E quem deu a Thomé sentidos para a vêr?
—A ninguem faltam, creio-o. Mas quando se trabalha com verdadeiro ardor, a visão encobre-se prudentemente, como se soubesse que quem a tem presente, tão namorado está d'ella, que o assaltam as distracções dos namorados. E o trabalho é exigente e severo; ha uns cuidados pequeninos, impertinentes, prosaicos, de que elle não prescinde. Ás vezes é util até certa irritação provocada pelas difficuldades fastidiosas que elle suscita; instigam, estimulam brios para vencêl-o.
Continuaram os dois irmãos este dialogo e assentaram emfim na resolução de mudar de vida, cada um com o grau de firmeza propria do seu caracter, e portanto com firmeza desigual. Decidiram fallar n'aquelle mesmo momento a D. Luiz.
A occasião era propicia. Frei Januario dormia ainda a sesta, e portanto o fidalgo devia estar só no seu quarto.
Era já noite. O luar coloria com tintas magicas a paisagem fronteira á Casa Mourisca. Esta desenhava o seu vulto negro sobre o fundo azul pallido do céo sem estrellas. A ramaria dos carvalhos e a queda da agua nas fontes levantavam vozes melancolicas do meio das indistinctas sombras da quinta.
Em noites assim conservava-se D. Luiz longo tempo á janella do quarto. A fronte encostada á mão, os olhos fitos nos pontos illuminados da perspectiva, e o pensamento… ai, quem sabe porque melancolicas paragens andava o pensamento do pobre velho?! Passadas magnificencias, festas, alegrias e triumphos de tempos mais felizes, memorias de vida n'esta habitação hoje silenciosa, e por toda a parte, e sempre, a pallida imagem da filha morta, o enlevo de toda a sua vida, que ao desapparecer lh'a deixou escura e desencantada… que outras podiam ser as visões presentes áquelle espirito sombrio?
Pobre velho!