Passados os primeiros momentos absorvidos pelos transportes de alegria, a baroneza e Mauricio, reparando mais attentamente para o ar abatido e a pallidez de Jorge, fizeram-lh'o notar com apprehensão.
—Pelo que vejo, as tuas imprudencias continuam, Jorge?—disse a baroneza.—Ajuizado como és, não vês que pelo caminho que segues não podes realisar os teus grandes projectos?
Jorge sorriu, encolhendo os hombros.
—Que quer que lhe faça, Gabriella? A vontade do homem não rege os processos intimos da sua vida organica. Não está na minha mão modificar o andamento dos meus actos nutritivos.
—Mas podes desviar muito bem as causas que os perturbam. O excesso de trabalho…
—Não é isso, Gabriella—acudiu Mauricio—eu sempre conheci em Jorge o habito de estudar e de trabalhar sem estes effeitos. O que o mata é a louca presumpção de ser superior ás paixões, e a tentativa que faz para sacrifical-as a não sei que imaginarios deveres.
Jorge sorriu.
—Já vejo que se estabeleceu entre os noivos o communismo de segredos.
Esse soubeste-o só depois de casares.
—Suspeitei-o muito antes, bem o sabes.
—Isso é verdade, suspeitaste-o muito antes de eu proprio me convencer d'elle.