Admirado com a descoberta, mais admirado ficou ainda ao ouvir os commentarios de Gabriella a tal respeito, e as ideias revolucionarias e subversivas que sustentára contra o fidalgo.
Frei Januario, mais respeitador dos foros da fidalguia do que o mais esmerilhado aristocrata, sentiu-se provocado a protestar contra aquellas doutrinas e a vir em auxilio do fidalgo com inesperado soccorro, que por certo o faria de novo entrar nas suas boas graças.
Portanto, n'estas alturas da discussão, levantou-se do canto em que estivera occulto, e acabando de sorver os restos de uma pitada, que conservára entre os dedos, afastou a cortina e surgindo do outro lado do leito, defronte da baroneza, disse escandalizado:
—Perdoe-me v. exc.ª, snr.ª D. Gabrielia, mas eu não posso deixar de manifestar o meu espanto pelo que acabo de ouvir.
—Ah! Pois estava ahi, snr. frei Januario? Confesso que nem de tal me lembrava—disse Gabriella sorrindo.
D. Luiz franziu o sobrolho, como quem não agradecia ao padre a intervenção.
—Aqui tenho estado de noite e de dia, minha senhora—respondeu o padre em tom de censura—e fiquei, porque ninguem me mandou sahir. Além de que eu já estou costumado a ouvir e a guardar os segredos d'esta familia.
—Quem lhe diz menos disso, snr. frei Januario? Eu apenas observei que me não lembrava da sua presença ahi. Mas pelo que vejo as minhas ideias não merecem a sua approvação.
—De certo que não—tornou o padre.—O snr. D. Luiz tem razão. A nobreza è a nobreza; e mal de nós se ella se esquecia dos seus deveres e assim se misturava ás classes infimas.
—Então que mal succedia com isso ao snr. frei Januario?—perguntou a baroneza, rindo.