—A mim?
—Então não disse: «mal de nós?»
—Sim, mal de nós todos, porque a sociedade precisa d'estas distincções; senão, não ha ordem, não ha governo, tudo é anarchia e republica.
—Leu isso no evangelho?
—É o que a experiencia me tem mostrado.
—Ah! a experiencia! Muitos obsequios deve á experiencia o snr. frei
Januario!
—Porém devéras, minha senhora, v. exc.ª podia aconselhar seriamente ao snr. D. Luiz o casamento do snr. Jorge, do morgado, morgado não, que até já com isso acabaram para acabarem com todas as familias illustres, mas emfim do representante, o filho mais velho de s. exc.ª … o casamento d'elle com quem? Com a filha do Thomé da Povoa! Um homem, senhores, que eu conheci criado d'esta casa! v. exc.ª não fallava a serio ha pouco. É impossivel.
—Olhe que fallava, snr. frei Januario, fallava, fallava.
—Ó minha senhora, por quem é! Lembre-se v. exc.ª da familia a que pertence, do nome que tem e verá que se ha de envergonhar da lembrança. Bertha da Povoa! Bertha da Povoa! a filha do Thomé! Era o que me faltava vêr n'este mundo! Bertha, que o pae enfeitou com vestidos de senhora, mas que a final sempre ha de mostrar a origem d'onde sahiu! Eu sempre ouvi dizer que o que o berço dá a tumba leva, e que o pé de tamanca foge sempre para a tamanca. Havia de ter graça ouvir o snr. D. Luiz chamar filha á rapariga! e ella feita senhora na Casa Mourisca! Ora essa! Em tal não podia consentir o snr. D. Luiz ainda mesmo que quizesse. Bem vê v. exc.ª que uma pessoa da nobreza do snr. D. Luiz não tem só a consultar a sua vontade. Lá está a mais familia. Que diriam os snrs. Mellos de Ribeira-formosa? os snrs. Cunhas do Choupello? os snrs. Sotto-maiores da Fonte das Urzes, os snrs. do Cruzeiro, e toda a nobreza por essa provincia adiante? Com que olhos veriam esse casamento monstruoso as damas de todas essas familias, e em uma palavra a fidalguia do reino! V. exc.ª de certo não pensou nisto. Demais…
O padre não pôde proseguir na sua animada refutação.