Era um expressivo grupo o d'aquella rapariga adormecida e o d'aquelle velho pallido, descarnado, meio erguido no leito, contemplando-a em um quasi rapto de adoração. Áquella hora, no meio d'aquelle silencio, alumiado por aquella luz, a scena era mysteriosamente solemne e imponente.
Horas talvez durou aquella contemplação silenciosa.
De repente accentuou-se no rosto do fidalgo uma expressão de energia e firmeza que a doença e a preoccupação de espirito havia muito lhe tinham dissipado.
Curvando-se mais sobre o rosto de Bertha, desviou com extrema delicadeza a madeixa que lhe cahia sobre a fronte e murmurava como para si:
—Por que és tu que vélas a meu lado? Que laços te prendem a mim? Porque dedicas a este velho a tua juventude?… E não se recompensa esta abnegação? Pagam-te sacrificando-te aos seus… preconceitos.
E continuava a contemplal-a em silencio; depois voltava a murmurar:
—Beatriz, se fosse viva, chamar-te-ia irmã; havia de querer-te junto de si, no seu quarto. E eu… porque não hei de chamar-te filha?…
Não disse mais o velho, mas curvando-se ainda mais, poisou na fronte da rapariga um beijo expressivo de paternal affecto.
Pela madrugada o doente mostrou-se algum tanto inquieto a ponto de sobresaltar Bertha, que o espiava com solicitude.
Á interrogação que ella lhe dirigiu para saber a causa da agitação em que o via, D. Luiz não respondeu logo; porém, momentos depois, olhou para a afilhada com uma expressão singular, pegou-lhe nas mãos, apertou-as com affecto, e disse-lhe com manifesta commoção: