—Falla, Jorge—proseguiu o velho.—Vá, nunca viste em mim um confidente, porque o meu caracter serio e reservado afugentava as tuas expansões de criança; mas a doença quebrou-me e hoje posso escutar-te. Tu soffres, Jorge, e soffres por minha causa, não é verdade?

—Meu pae—dizia Jorge cada vez mais embaraçado.

—Eu sei tudo. Sei do amor que se te formou no coração e que disputou o teu pensamento aos projectos de rehabilitação que emprehendeste para salvar esta casa da ruina que os nossos e eu lhe preparamos; sei da tenacidade com que combateste esse amor, da coragem com que o sacrificavas aos meus principios aristocraticos, apesar de vêres apenas n'elles meros preconceitos de classe.

—Creia, meu pae, que respeito as suas opiniões e que…

—Ouve-me. Orgulho-me com o teu caracter; vi n'elle a nobre tempera de um verdadeiro fidalgo e desde então creio devéras que a regeneração da nossa casa, emprehendida por um homem como tu, não póde deixar de realisar-se. Vou sem este pêso para a sepultura. Os meus erros ser-me-hão relevados por o facto de te ter por filho. Tu rehabilitarás a minha memoria. Jorge, o meu coração não tem já a dureza de outros tempos, males de toda a especie acabaram de vencêl-o; agora é um coração de homem. Por isso me é intoleravel a ideia do teu sacrificio. Se tu participasses dos meus… preconceitos, era justo que lhes sacrificasses todos os affectos; sentirias na satisfação interior a compensação do sacrificio. Mas sacrificares-te só por meu respeito, sem teres a mesma fé no objecto a que te sacrificas… n'isso não posso eu consentir. Reunirei as minhas forças para subjugar alguns restos de vaidade que se revoltem, e antes de morrer desviarei o unico obstaculo da tua felicidade, dizendo-te: «Podes ser feliz, Jorge.» Além de que, tu és nobre bastante para ennobreceres aquella que cingires ao coração e ficares nobre ainda.

Jorge percebeu o sentido das palavras do pae. Em extremo surprendido pela inesperada condescendencia do homem que elie julgava incapaz de transigir com taes ideias, era vez de deixar-se penetrar da alegria que este successo parecia dever inspirar-lhe, disse com mal sustentada serenidade:

—Por muito doloroso que seja para mim o sacrificio de que falla, meu pae, talvez seja mais ainda para si o que emprehende, querendo dispensar-me d'elle. Creia, senhor, que eu não discuto a legitimidade das suas opiniões, respeito-as; e a satisfação intima que me virá da consciencia de as ter respeitado, será tambem para mim uma poderosa compensação.

—E a ella? Quem a compensará?—perguntou D. Luiz, com inflexão de dor.

—A ella? É de Bertha que falla? Se eu não soubesse que aquella alma nobre e forte está á altura do sacrificio, talvez me fallecesse a coragem para tental-o.

—É uma nobre alma devéras—tornou D. Luiz, como fallando para si.—E quem a apreciará? A que destino a condemnaremos se a expulsarmos das regiões para onde os seus nobres instinctos a chamam? Pobre d'ella! E tu, tu que a amas, tens a certeza de poderes levar ao fim o sacrificio? Não é certo que a tua saude já se tem resentido do esforço que fazes? Vê bem, Jorge! Na tua idade os affectos são mais violentos do que na minha. E comtudo eu proprio quero já tanto a essa rapariga, que sinto que estes restos de vida que ainda possuo devo-os á sua presença. O que não será comtigo?