Outros rapazes aproximaram-se. A rapariga fugiu.

Carlos, depois de alguns instantes tomados por occupações analogas ás que descrevemos, caminhou emfim para o escriptorio.

Era assim que elle tratava negocios na Praça Commercial; vejamos no escriptorio.

IX

NO ESCRIPTORIO

Na velha sala de paredes cinzentas e de soalho carcomido pelo caruncho, onde Mr. Richard Whitestone tinha o escriptorio, havia vinte annos que escrevia, addicionava, subtrahia, multiplicava, e dividia algarismos, e isto tudo resmoneando, cantarolando e tossindo, o snr. Manoel Quentino, personagem da idade do seu seculo, primeiro guarda-livros da casa, e homem de habitos de vida, tão beneficiadores da saude do corpo, como mantenedores da serenidade do espirito.

Manoel Quentino era a alma d'aquelle recinto. Na confusão de papeis, com que lidava, taes como:—correspondencias, facturas, contas correntes, contas de venda, conhecimentos, primeiras, segundas e terceiras vias de letras, minutas de seguros, recibos e mais documentos commerciaes, elle só, habituado desde muitos annos áquillo, podia descobrir uma disposição ordenada.

D'isto mesmo se gabava; o que não se devia taxar de presumpção da sua parte.

Pedissem-lhe de repente a mais insignificante carta, que elle, sem hesitar, iria dar com ella. Era porém seu o segredo d'esta singular classificação, que dera ás cousas; para o proprio Mr. Richard, antolhava-se um dédalo o escriptorio, dédalo onde, ao querer orientar-se, não dispensava nunca o fio conductor das explicações do guarda-livros.

Homem de habitos regulares, a mais não poder ser, invariavelmente ao soarem as sete horas da manhã no verão, e as oito, no inverno, estava Manoel Quentino movendo a chave na porta do escriptorio; e meia hora depois, sentado já á banca, todo entregue ao trabalho da escripta. Ás tres da tarde, no inverno, e ás quatro, no verão, movia segunda vez a chave, mas em sentido contrario; exceptuando uma ou outra occasião extraordinaria, em que a affluencia de serviço o obrigava a serões.