Não era Manoel Quentino d'estes guarda-livros de mão rapida, e de prompto expediente, que n'um momento dão solução a muitos negocios juntos. Elle tudo queria feito com tempo, e, como a cada momento dizia: «para pressas é que não era»; graças, porém, á paciencia e á regularidade de trabalho, que não perdia nunca, insensivelmente o serviço adiantava-se-lhe nas mãos e difficil seria acharem-o atrazado alguma vez.

Observava pontualmente o judicioso preceito: festina lente, e comprovava, com o exemplo, a efficacia d'elle.

Queria Manoel Quentino immensamente áquelle escriptorio, tal qual se achava, assim mesmo desataviado e nú. Por vezes, Mr. Richard, e principalmente Carlos, haviam procurado realisar n'elle certos melhoramentos, que o fizessem mais commodo; tiveram porém de recuar diante das repugnancias do velho guarda-livros, que declarou affligir-se devéras com isso; e, como era elle a parte mais interessada no caso, visto que alli passava grande parte da vida, foi-lhe facil vencer.

Em resultado d'isso, continuava a deliciar-se com aquellas quatro paredes escuras, com o tecto de castanho apainelado, que o tempo ennegrecera, com o chão aspero e picado pelos insectos, com as janellas de construcção antiga, de pequenos caixilhos, e abundantes em fechos, aldrabas e postigos, com a porta de fortaleza, cujos gonzos perros tinham um chiar, que era para Manoel Quentino como o timbre de uma voz de amigo, agradavel ainda quanto pouco harmoniosa, com as escrivaninhas, os mochos, os cabides, o lavatorio e toda a mobilia emfim, feita segundo os velhos modelos dos escriptorios antigos.

Eram aquellas as testimunhas do encanecimento dos seus cabellos; como taes as amava.

Além de Manoel Quentino, compunha-se o pessoal do escriptorio de dois segundos caixeiros e um rapaz de serviço, a todos os quaes o guarda-livros accusava constantemente de mandriões e ao mesmo tempo quasi os impedia de trabalhar, pela excessiva disposição que tinha para fazer tudo por suas mãos.

Momentos antes de Carlos chegar, Manoel Quentino havia dado aos escripturarios duas cartas insignificantes a copiar e entregára-se elle, com todos os seus cinco sentidos, á redacção da correspondencia para Londres.

Dos escripturarios, um, tendo terminado a sua facil tarefa, aproveitou-se da distracção de Manoel Quentino, tirou ás escondidas da escrivaninha um romance de Paulo de Kock e pôz-se a lel-o, com a sôfrega curiosidade dos dezesete annos; o outro occupou o tempo a escrever uma carta de amores á dama dos seus pensamentos, carta em que, por incidente, foram inclusas algumas allusões epigrammaticas ao guarda-livros, a quem entre outras cousas se chamava «Argos desapiedado»; o rapaz de serviço, deixado tambem em disponibilidade, entretinha-se a perseguir as moscas da vidraça ou a traçar com o dedo lettras maiusculas nos vidros, que humedecia com o bafo. Qualquer d'estas tres occupações, sendo pouco ruidosa, mantinha-se no escriptorio um silencio, que agradava a Manoel Quentino.

Elle era o unico a interrompel-o, graças ao singular monologo, que estava de contínuo murmurando á penna com que escrevia.

Dava-se effectivamente em Manoel Quentino uma illusão singular.