Parece que o typo nacional é indigno de referencia, e que só quando d'elle aberra e, por um capricho da natureza, reveste a feição estrangeira, é que uma figura de mulher merece as fórmulas, mais ou menos sonoras e hyperbolicas, da nossa admiração.

É vulgar ouvir-se dizer:—«Como é bella! Ha n'aquelle todo vaporoso certo ar germanico!»—«Que mulher! Tem o salero de uma hespanhola!»—«Que magestade! que morbideza! É uma perfeita madonna italiana!»—«Que poetica gravidade! Dir-se-hia uma candida lady!» O que porém se não ouve, pelo menos o que eu ainda não ouvi, é: «—Que sympathica rapariga! É uma portugueza perfeita!»

A causa d'isto é o sermos nós uma nação pequena e pouco á moda, acanhada e bisonha n'esta grande e luzida sociedade europeia, onde por obsequio somos admittidos, dando-nos já por muito lisongeados, quando os estrangeiros se deixam, benevolamente, admirar por nós.

Falta-nos certo uso de sociedade, que ensina cada qual a occupar o seu logar. Quando não encarecemos exageradamente as cousas patrias, á maneira d'aquelle sujeito que vimos n'um dos grupos da Praça, caímos no excesso opposto e nem sequer fallamos d'ellas, como se nos corressemos da origem.

Bem que peze á vaidade nacional, é forçoso o fazer aqui, em familia, uma confissão:—Nós temos o defeito d'aquelles provincianos que, nos circulos da capital, suffocam envergonhados, como cousa de mau gosto, uns restos de amor da terra, que ainha os punge, e deitam-se a exaltar, com affectação altamente comica, os prazeres e commoções da vida das grandes cidades, que ainda mal gosaram e ainda mal saboreiam;—fallam dos theatros, dos bailes, da cantora da moda, do escandalo do dia, sem se atreverem a dizer uma palavra pelo menos das arvores, das paizagens, das tradições, dos costumes locaes, do conchego domestico da sua provincia, o que porventura os outros lhe escutariam com mais vontade; e no fim de tudo ficam mais ridiculamente provincianos, do que nunca.

Assim tambem os portuguezes, acanhados nos circulos da Europa, não ousam conferir diplomas de excellencia a cousa que lhes pertença; envergonham-se de fallar nas riquezas patrias, emquanto abrem a bôca, por convenção, a tanta insignificancia que, em todos os generos, a vaidade estrangeira apregôa como primores: levam o excesso da modestia, se é só modestia isso, até receiarem que as vistas dos estranhos averiguem do que lhes vae por casa, e agradecem, com effusões de sensibilidade, uma ou outra phrase de louvor, que, em momentos raros, elles lhes concedem.

Se ousamos fallar de Camões, ao mesmo tempo que de Tasso, de Dante e de Milton; se ousamos apregoar o vinho do Porto, junto com o de Xerez, Chateau-Laffite e Tokay, é porque lhes deram lá fóra o diploma de fidalguia; que por nós … continuariamos, calados, a ler um e a beber o outro, sem bem conhecermos a preciosidade que liamos e que bebiamos, ou pelo menos correndo-nos de uma nos parecer sublime, e a outra deliciosa.

Ainda que se taxe um dos similes de menos delicado, é certo que o mesmo succede com as bellezas femininas; costumamo-nos ás exclamações á moda:—«Ah! as hespanholas!»—«Oh! as italianas!»—«Ai, as allemãs!» e julgariamos de mau gosto dizer em publico:—«As portuguezas!» até sem interjeição prévia a encarecer-lhes a valia.

E isto fazem-o até muitos, que nunca transpozeram as barreiras d'esta cidade, onde não abundam os typos d'essas varias bellezas exoticas.

Eu porém atrever-me-hei a arvorar a bandeira puritana n'esta campanha gloriosa.