—Não julgue que lhe vou mostrar nenhuma preciosidade; foi uma distracção de meia hora no serão de sabbado. Esta semana tive tanto que fazer, que não pude occupar-me com estas bagatelas. Bem sabe que não me cresce muito tempo para brincar. Olhe.
E mostrava a Jenny um delicadissimo primor da arte feminina; um cabeção apenas, mas do qual, se me auxiliassem conhecimentos technicos, poderia fazer uma descripção, pelo menos do tamanho da que Homero consagrou ao escudo de Achilles.
Mas a sciencia das leitoras e a ignorancia provavel dos leitores n'este assumpto não lhes deixarão sentir a lacuna.
—Pois eu ia quasi dizer-lhe que inda acho este mais bonito, do que o outro que me mostrou ha dias—disse Jenny, demorando-se a examinar o cabeção.
—O desenho d'esse é mais delicado, mas… Ai!—acrescentou passando, a sorrir, a mão pelos olhos, e suspirando—parece-me que nem vejo, de somno que tenho!
—Somno! E levantou-se tão tarde! Que quer dizer isso hoje, Cecilia?
—É que me deitei hontem muito tarde tambem.
—A trabalhar?
Houve um intervallo de silencio, antes que Cecilia se resolvesse a responder. Jenny insistiu, elevando ao mesmo tempo os olhos para ella. Viu-a córando e como entretida a segurar um alfinete.
Os alfinetes são os principaes cumplices de todos os disfarces femininos. Sempre que uma mulher precisa de occultar um sorriso, uma turbação, um rubor, tem a certeza de encontrar estes amigos officiosos a servirem-lhe de pretexto. Ha sempre um alfinete a pregar, a despregar, e a repregar de novo.