A final porém, com visivel esforço sobre si mesma, Cecilia respondeu de uma maneira, que em vão procurou tornar natural:

—Não, Jenny, não foi a trabalhar.

Jenny presentiu um segredo n'aquelle enleio e hesitação, mas não tentou descobril-o; disfarçando as suas suspeitas, disse-lhe:

—Pôz agora de lado um trabalho de crochet, que me pareceu bonito.

Cecilia mostrou-lh'o, sem dizer nada.

E o silencio manteve-se algum tempo entre as duas, silencio de as constranger a ambas; até que emfim Cecilia, n'uma d'essas subitas resoluções tão frequentes n'ella, e pelas quaes parecia querer apressar-se a realisar um bom pensamento, antes que ulteriores reflexões viessem suffocal-o, pôz de lado, com certa impaciencia, toda a obra que tinha estendida no regaço, e tomando as mãos de Jenny, fitou os olhos, negros e cheios de vida, nos olhos azues e suavemente melancolicos, com que esta a seguia admirada:

Cecilia conservou-se ainda alguns momentos silenciosa e indecisa; mas por fim, córando mais e possuida de sobresalto, que não conseguiu disfarçar sob sorrisos:

—Jenny—disse com a voz trémula de commoção—eu sei que a menina é minha amiga, e julgo que o melhor é contar-lhe tudo…

—Seja o que for que tem para me dizer, se o que a faz hesitar é a duvida da minha amizade, posso assegurar-lhe, Cecilia, que…

—Não, não é, não podia ser—acudiu Cecilia, e por um movimento rapido, impensado, irresistivel, levou aos labios as mãos delgadas de Jenny, que não lhe pôde fugir a tempo.