Jenny revestiu-se de seriedade e reflectiu algum tempo, antes de responder.
Não se imagina como se faziam extraordinariamente bellas as feições de Jenny sob a influencia d'este ar de reflexão, que tão frequente lhe fixava o olhar e lhe desenhava uma ligeira ruga na fronte.
Cecilia consultava com apparente sobresalto aquella physionomia expressiva.
—Olhe, Cecilia,—disse Jenny por fim—como a menina ainda agora o reconheceu, não foi por certo prudente o passo que deram. A necessidade de o occultar de seu pae era bastante prova d'isso, quando nada tivesse acontecido que melhor o provasse ainda. Carlos procedeu bem e mal; bem, em as proteger; mal, depois. Elle devia ter sempre na ideia, como eu lhe disse, que alguma pessoa bem educada, e que de facto tinha desejos de occultar-se, podia ser essa mascara que elle, depois de proteger, perseguia. Disse-lh'o ha pouco ainda, mas… sabe o que elle me respondeu?
—Que foi?
—Se eu lh'o digo, Cecilia, é para que a menina faça sempre o que lhe aconselharem os presentimentos do seu bom coração, e creia que são excellentes as inspirações que lhe vierem d'ahi. Quando eu dizia a Carlos que imaginasse que era eu mesma a que estava debaixo d'aquelle dóminó, e a que me via perseguida, respondeu-me que não havia probabilidade d'isso, porque… pessoas que…
—Oh! não diga mais, Jenny, não diga mais—atalhou Cecilia, quasi fechando-lhe os labios com a mão; e os olhos inundaram-se-lhe de lagrimas que, umas após outras, lhe rolaram pelas faces.
Era uma das irresistiveis expansões d'aquella impetuosa natureza.
—Bem vê, Cecilia—proseguiu Jenny com affecto—bem vê que não tinha razão Carlos, no que suppunha. A culpa toda era d'elle. E agora não se afflija, menina. Affligir, porquê? Foi uma brincadeira de raparigas e sem consequencias além d'aquellas—acrescentou, sorrindo—de que nem a inspiração, que Deus lhe mandou, a pôde livrar. E se isto a faz chorar assim, o que ha de deixar para os infortunios reaes?
—Jenny, prometta-me nunca dizer a… a ninguem que era eu…