O fim da tarde e a noite d'aquelle dia, em que se passou a parte das scenas, que havemos descripto até aqui, podem offerecer-nos uma perfeita amostra d'elles.
Manoel Quentino, depois de jantar, viera assistir, da varanda do occidente, ao espectaculo do crepusculo e regalar a vista por sobre as quintas, jardins, casas e alamedas do vasto panorama que o mar cingia de zona prateada.
A tarde estava de chuva, mas o vento de sudoeste conseguira romper o extenso manto, que cobria o firmamento, e mostrando um pouco do azul da abobada celeste, deixava que o sol no occaso dourasse as ultimas nuvens, que d'aquelle lado limitavam o horizonte.
As occupações domesticas de Cecilia só de quando em quando lhe permittiam assomar tambem á varanda, e recostando então o braço ao espaldar da cadeira do pae, fazia notar a este as particularidades de belleza d'aquelle vasto quadro, que o espirito pouco analytico do velho sómente apreciava em globo.
—Repare n'aquella nuvem côr de rosa. Não parece mesmo uma ave com as azas abertas?—perguntava Cecilia, designando uma das taes nuvens, que o sol tingia os reflexos afogueados.
—Uma ave!—dizia Manoel Quentino, fitando o objecto designado—Então como te parece uma ave aquillo, menina?
—Pois não acha? Olhe; vê alli a cabeça, depois uma aza, depois a outra?
Olhe, agora inda parece mais; até a cauda se conhece bem…
—Eu… se queres que te falle verdade…—continuava Manoel Quentino, sem perceber ainda a similhança.
—Olhem que pae este! Pois devéras não vê? Para onde é que está a olhar?
E Cecilia vinha collocar a sua bonita cabeça na posição da de Manoel Quentino, e tão perto, que o pae não perdia o ensejo de lh'a beijar na fronte.