—E tem umas ideias! Boa noite, meu pae.
—Muito boa noite, minha filha. Deus te abençoe.
Cecilia retirou-se.
Apesar de na vespera se ter deitado tarde, como o leitor sabe, Cecilia não sentia somno. Parecia-lhe estar ainda experimentando o atordoamento do baile. Lembrava-lhe tudo quanto Carlos lhe dissera, e o mais que de Jenny tinha sabido, e affligia-se então. Depois vinham as reflexões de Fortunato, depois as palavras do pae e os episodios que de Carlos Whitestone referira. A final cedeu ao somno. Pouco lucrou na transição. Ha certo dormir que fatiga mais que a vigilia. Trava-se uma lucta de sonhos, que nos deixa extenuados.
Cecilia imaginou que ia n'um barco, levado pela corrente impetuosa do rio, em direcção da barra. O perigo era certo, e comtudo o barco ia cheio de mascaras que dançavam. Cecilia gritava, mas ella propria não escutava a sua voz. O barqueiro era o snr. Fortunato, e, cousa singular, ao mesmo tempo que remava, ia tomando chá. Depois vinha Carlos, com um cavallo pela rédea; mas o que mais a surprendia era que vinha pelo mar. Carlos queria salval-a, tirando-a do barco, mas as outras mascaras e o snr. Fortunato não deixavam. Porém o snr. Fortunato já não era o snr. Fortunato, mas sim um dos personagens do romance, que tanto o impressionára; e o mar tambem já não era bem mar, porque tinha camarotes em volta. E comtudo o perigo persistia, sem saber bem como ou em quê, e agora era ella a que fugia de Carlos.
Finalmente, o sonho era de um enredo complicado, tendo por elementos os diversos acontecimentos e assumptos, que mais tinham preoccupado Cecilia n'aquelle dia, mas tudo em desordem completa.
Em consequencia d'este sonho, acordou de manhã, pallida e abatida—o que não pouco inquietou Manoel Quentino.
XIV
IMMINENCIAS DE CRISE
Emquanto Cecilia passava assim pacificamente o serão d'aquella noite, andava Carlos procurando com anciedade, por todos os salões de mascaras, a sua desconhecida da vespera.