Tinha esta casa dois andares; era a face posterior a que se avistava d'alli. A varanda do primeiro andar estava toda entretecida de trepadeiras, que subiam do quintal. No intervallo das duas janellas florescia, em uma especie de alegrete, um arbusto, ao que parecia, de camelias. Na varanda do andar de cima via-se, pendurada de uma corda, que se estendia em todo o comprimento d'ella, alguma roupa branca, sobre a qual o sol batia em cheio, fazendo-lhe realçar a alvura.

Como disse, demoraram-se n'aquelle ponto da perspectiva os olhos de Carlos, sem que os seguisse, desde logo, o pensamento, absorto como estava ainda na sequencia de meditações sobre os destinos do homem n'esta vida.

Mas, instantes depois, alguma cousa se passou, que foi como que o laço de união entre o objecto das contemplações dos olhos e o das do espirito, que, desde então, se associou áquelles, no exame da modesta vivenda, em cujas vidraças o sol simulava a apparencia de um vasto incendio.

O phenomeno nada tinha de extraordinario comtudo. Na varanda de cima apparecera uma mulher; nada mais. Mas esta mulher, ainda que a distancia mal permittisse distinguil-a, mostrava, pela elegancia de estatura e pela vivacidade de movimentos, ser ainda joven. Não era para estranhar que a imaginação de um rapaz de vinte annos a suppozesse tambem formosa.

Viera examinar a roupa, que estava a córar ao sol; tirava uma e substituia-a por a que trazia de dentro; mais adiante, mudava a face exposta de outra; de quando em quando interrompia o trabalho e olhava para fóra, pondo a mão por cima dos olhos, como a abrigal-os da intensidade da luz; outras vezes, voltava-se para a sala e parecia fallar a alguém de dentro. Depois desapparecia; voltava de novo, e sempre, com manifesta solicitude, applicada ao trabalho.

Carlos seguia com prazer o ir e voltar d'aquella mulher, que a custo distinguia, mas que nem por momentos imaginou que podesse ser uma criada.

Elle, que estivera sonhando com os encantos do viver intimo, aprazia-se de imaginar agora, n'aquella casa, um d'esses mundosinhos modestos, que lhe estavam a appetecer.

—Uma esposa, nova por certo, canceirosa com os negocios domesticos…—pensava elle—Deve ser um prazer indefinivel sentir-se a gente viver sob os cuidados de um d'estes entes, votados assim inteiramente á nossa felicidade…

Era natural, desde que pensou isto, que se lembrasse de Jenny. Lembrou-se, é verdade; mas a imaginação sorriu affectuosamente áquella doce imagem, e deixou-a. Ao estado do seu coração não satisfazia só o sorriso fraternal e meigo que animava de bondade as feições da irmã. A seu pezar, surprendia-se a aspirar a mais.

A tarde adiantava-se, e Carlos não se desviava d'alli; prendia-lhe as attenções aquella casa e a sympathica visão da varanda.