—Ás vezes.
—Dou-te os pezames. Gessner envelheceu; Florian dorme o somno dos inoffensivos. A proposito, já te mostrei o meu folhetim de critica, a respeito do volume do Serrão?
—Ainda não.
—Apparece então no Guichard esta noite. O livro é um pretexto; o que eu procuro é caracterisar a litteratura moderna, estremando os campos, hoje um pouco confusos, de romanticos e de classicos. Sabes que é o meu systema investigar nas pequenas apparencias as grandes revelações? É o que faço d'esta vez ainda. Assim, n'este estudo, serviram-me de ponto de partida duas palavras apenas; uma colhida de Racine, na Berenice; outra de Victor Hugo, no Ruy Blas. São as palavras finaes de uma e de outra tragedia. Antiochus vê partir Berenice e exclama: Helas! Ruy Blas morre nos braços da rainha e murmura: Merci! Basta-me isto.—Helas!—é o grito de dor, é o desespêro, é a falta de coragem no infortunio; é a ultima palavra de uma litteratura, que não tem confiança no futuro, de uma litteratura, que vive só do passado. Merci!—é, pelo contrario, a resignação, a esperança, o apuramento do padecer até á essencia inebriante do soffrimento proprio, que chega a confundir-se com o prazer… é pois a phrase digna de uma litteratura viva, inspirada do futuro…
A prelecção continuou; e Carlos reconheceu, pela impaciencia com que a estava escutando, a nenhuma disposição que tinha para apreciar n'aquella noite a sociedade de seus amigos. Separou-se d'este o mais depressa que pôde.
—Não serei eu que vá ao Guichard esta noite. D'esta vez farei a vontade a Jenny. Ficarei em casa—disse elle, logo que conseguiu despedir-se.
E entrou justamente quando já a campainha chamava para o jantar.
Jenny, vendo-o chegar, e notando o ar grave que trazia, murmurou comsigo:
—Ainda é cêdo para o restabelecimento. Esperemos.