Tendo já desesperado de ouvir no theatro do Porto musica de compositores inglezes, como Haendel, Gray, Arnold, Bishop e outros, cujos nomes a cada momento citava com enthusiasmo, resignára-se a afagar sómente o seu acrisolado patriotismo com ir ao theatro, quando se cantavam aquellas operas, cujos librettos eram extrahidos de algumas das obras primas da litteratura ingleza.

O Othello, o Macbeth, os Capulletos, as Prisões de Edimburgo, os Foscaris, o Marino Faliero e outras n'este mesmo caso, luctavam vantajosamente com o seu muito amor pelo fogão e traziam ao publico aquella physionomia, radiante de contentamento e expressiva de saude, que o leitor já conhece.

Preparava-se de antemão, n'essa tarde, relendo a obra, que servira de assumpto á opera, e ia depois com vontade para o theatro.

Não era porém Rossini, Verdi, Bellini, Ricci e Donizetti os que o attrahiam e enlevavam; era Shakespeare, era Byron, era Walter Scott, cujos grandiosos vultos lhe parecia estar vendo no palco evocados, por sua vez, pelos mesmos personagens, que o genio d'elles tinha evocado outr'ora.—A musica era o accessorio. Os applausos do publico roubava-os Mr. Richard, por patriotismo, aos maestros, para conferir áquelles seus famosos conterraneos.

No numero das taes operas contava-se Lucia de Lammermoor. Assumpto escossez, tratado por penna escosseza, e das mais admiraveis em desenhar typos sympathicos e immortaes, não era para Mr. Richard resistir-lhe. Havia de ir por força.

Foi; mandou tomar um camarote para aquella noite. A plateia nunca lhe agradou. Estava mais comsigo e com os seus no camarote; e isto de estar comsigo e com os seus tinha para elle a força de necessidade.

Era costume invariavel de Mr. Richard convidar Manoel Quentino, n'estas occasiões.

Grande mortificação causava a este tal convite, mas não se atrevia a recusar. Aceitava e agradecia até, porém, a occultas, suspirava por ter de privar-se uma noite dos suaves prazeres dos seus serões domesticos, das attenções e cuidados filiaes de Cecilia e até das monótonas reflexões do amigo José Fortunato; este não sentia menos pezar em modificar habitos já inveterados n'elle e prescindir do chá e dos bocejos do vizinho.

Mas não havia remedio. Manoel Quentino ía.

Depois de resolvido a isso, entendia então que tinha restricto dever de chegar a tempo. Era o guarda-livros a pontualidade em pessoa; em tudo observava o preceito de antes esperar do que ser esperado; e, comquanto não fosse provavel que esperassem por elle para começar o espectaculo, é certo que, pouco depois de anoitecer, viam-o já a passeiar no atrio do theatro, aguardando que lhe abrissem as portas dos corredores.