—Pois esta tarde… Eu já notára que ella ao jantar não tinha comido quasi nada… e eu, a fallar verdade, não gosto de ver aquillo. N'aquellas idades é que é o comer, e as cousas não correm bem, quando não ha appetite. Pois não lhe parece?
Jenny fez um movimento de affirmação, comquanto eu não dê por assentado que ella tivesse sobre o appetite absolutamente as mesmas ideias que Manoel Quentino.
—E depois?—perguntou ella.
—De tarde—continuou o velho—a pequena, contra o seu costume, metteu-se para o quarto, a ponto de me assustar; não tive mão em mim, que a não chamasse. Não me respondeu logo. Lembrou-me se lhe teria dado alguma cousa, e, já sobresaltado, ia a descer as escadas, para ver o que era, quando ella me appareceu, mas… ó menina, ou me engano muito, ou a rapariga tinha chorado; ella vinha a rir, vinha, mas eu…
—Foi de certo illusão sua; por que havia Cecilia de chorar?
—Pois ahi está o que me afflige. É o não saber! Ás vezes lembra-me… serei eu a causa? Ora é preciso que lhe diga que eu antes queria trabalhar como um negro toda a minha vida, e não ter um triste bocado de pão para comer, do que dar motivo a uma só lagrima d'ella.
E havia um tremor na voz de Manoel Quentino, ao dizer isto, que commoveu
Jenny.
—Socegue—disse-lhe ella, animando-o.—De certo não é a causa d'essa tristeza, que lhe parece notar em Cecilia. Que mais póde fazer por ella, do que o que faz?
—E tudo merece, menina, e mais! Assim eu podesse. É um anjo! Não imagina.
—Não imagino, sei; pois não é ella a minha mais querida amiga?