—No mesmo dia, em que tu me fallaste n'isso, me veio ella contar tudo. Tambem tenho a sua confiança. E se soubesses com que receios o fez! se visses com que lagrimas não fingidas me interrompeu, quando eu lhe ia a confessar o que pensavas das mulheres, que se encontram sós e mascaradas n'aquelles logares!
—Pois tu disseste-lhe… Ó Jenny!…
—O bastante para a acautelar de passos, como aquelle; visto que nem sempre apparecem protectores que, no meio das suas velleidades, conservem ainda uns restos de sentimentos generosos…
—Valha-te Deus, Jenny! Mas… na verdade que me custa ainda a acreditar! Pois era Cecilia! Confesso-te, Jenny, que nunca suppuz que aquella rapariga tivesse tanta graça, tanta intelligencia, tanto…
—Não é d'essa injustiça que eu desejo ver-te arrependido, Charles, mas antes da do conceito que fizeste de Cecilia, do modo como a trataste, só por a veres onde nem quizeste suppôr que podesse estar tua irmã…
—E repito!—acudiu Carlos, com vivacidade.
—Pois bem, Charles—respondeu Jenny placidamente, mas em tom reprehensivo.—Digo-te eu então que as qualidades, que a vida inteira de Cecilia dão-lhe direito a exigir de ti tanta consideração e estima, como a que dizes ter-me. É ainda hoje a minha melhor amiga.
Carlos olhou para a irmã, admirado; tal era a gravidade, que lhe descobriu no olhar e na voz.
Devemos confessar que elle nunca viu em Cecilia outra cousa mais do que uma rapariga bonita, a qual muitas vezes lhe merecera olhares complacentes, mas de quem tão depressa se esquecia, como d'ella se afastava.
Recordo-me de haver dito, que esta qualidade, de não desafiar immediatamente impressões profundas, caracterisava a especie de belleza, que Cecilia possuia.