Por mais de uma vez, Antonia, vindo consultal-a sobre negocios domesticos, foi constrangida a repetir a pergunta, porque Cecilia não a tinha comprehendido—o que, seja dito em abono da snr.ª Antonia da Natividade, não procedia de falta de clareza na redacção da phrase.
De uma d'estas fundas abstracções, tão repetidas n'aquella manhã em
Cecilia, veio arrancal-a o toque impetuoso da campainha do portal.
A este som Cecilia estremeceu e dirigiu os olhos para o relogio da sala, com um gesto de surpreza. Pouco passava da uma hora; não podia ainda ser o pae que voltasse, e raras vezes outra mão que não a d'elle fazia assim soar a campainha—muito menos áquellas horas do dia.
A estranheza augmentou e quasi degenerou em inquietação e susto com a entrada da criada, cuja physionomia não era de facto, n'aquelle momento, para tranquillisar ninguem.
A veneravel matrona trazia estampado no rosto, vigoroso de expressão, o mais completo espanto.
Cecilia, vendo-a, ergueu-se de subito e fez-se pallida, como se já aguardasse uma má noticia.
—Menina!… menina!…—dizia, a custo, a criada, fóra de respiração.
—Jesus! Que é, Antonia? que é?—perguntou Cecilia, batendo-lhe o coração com tal violencia, que parecia despedaçar-lhe o peito.
—Ai que ainda não estou em mim! continuava a outra.
—Diga, mulher! diga o que é.