—Feiticeira!
Jenny sorriu tambem.
—Na verdade!—proseguiu ella, d'ahi a pouco—é uma forte imaginação essa tua, que tanta cousa consegue de ti! e comtudo…—acrescentou, cobrindo-se de repente de mais seriedade—e comtudo eu prefiro ainda dirigir-me ao teu coração, que tambem é forte, porque é muito sensivel e muito generoso e que a ha de poder vencer; não é verdade? É a elle que eu vou fallar, Charles, e espero que serei escutada.
—Falla, Jenny, falla. Aconselha-me. Bem sabes que ha muito te tenho por meu bom anjo. Falla—disse Carlos, affectuosamente.
—Ora dize-me, Charles—continuou Jenny, cada vez mais commovida:—não imaginas o que póde resultar d'essa tua phantasia, a deixares-te assim arrastar por ella? Cecilia até hoje tem sido feliz. No passado não tinha nada que a envergonhasse ou que lhe désse pena; no futuro não antevia nuvem, que de longe a ameaçasse. Era uma vida aquella tranquilla e serena, como não imaginas. Mas Cecilia tem dezoito annos, Charles, e um coração cheio de confiança e uma imaginação… um pouco á similhança da tua… Conheço-a, a ella tambem. Se alguma vez se apoderar d'aquelle bom espirito qualquer ideia, se passar uma hora a acalentar qualquer illusão, acredita que já não será sem esforço, e sem dor, que a arrancará de si. E dize-me, Charles: a tua consciencia, que é justa, não havia de querer mal, e muito, á tua phantasia, que é uma enganadora, se ella fizesse, com seus conselhos, nascer essa illusão, obrigando-te a sacrificar ao capricho de uma manhã o futuro inteiro de uma existencia?
—Mas de que maneira imaginas tu esse sacrificio?—interrogou Carlos, levantando os olhos para a irmã.
—De que maneira? Pois dize-me: se Cecilia, que podia esquecer aquella scena do baile e todas as suas consequencias, principiasse, depois da tua visita, a pensar mais n'ella? se, sabendo-te senhor de um segredo seu, principiasse a… a pensar mais em ti? se, córando na tua presença de acanhamento ao principio, pouco a pouco… quem sabe lá?… viesse a córar… de commoção… de… amor?…
E, ao pronunciar esta palavra, as faces de Jenny tingiam-se de desmaiado carmim.
Carlos sorriu, vendo-o.
—Tu ris, Charles? É porque estranhas em mim estas palavras ou por suppôres infundados os meus receios? Em qualquer dos casos não tens razão. O que não conheço por mim, ha muito aprendi a conhecer por os outros, e por ti, Charles, principalmente por ti. Eu sei como essas cousas se passam; como o capricho se transforma em ideia fixa, como a ideia arrasta após de si a paixão. Eu sei, Charles; que o tenho visto em ti e sei que Cecilia tem imaginação, como a tua, que a póde conduzir a esses extremos; com a differença de que em ti a paixão transforma-se ainda em esquecimento, e n'ella… Se te viesse a amar…