—És injusta d'esta vez, Jenny.

—Não sou. Quero acreditar que te illudisses a ti proprio; mas, se pensares melhor, verás que tenho razão. Hontem, ao saíres do theatro, estavas triste. Bem o senti. E por que estavas triste? Eram remorsos pela má opinião, que tinhas formado de quem te merecia sómente respeitos, que não tiveste?

—Eram.

—Não eram, Charles, não eram. Para que procuras tu enganar-me? Não eram. Tu sómente lamentavas o fim de uma aventura, á qual tinhas imaginado mais longa duração. O caracter da pessoa, de que se tratava, mostrava-te, depois que a conheceste, que eram sem fundamento as tuas esperanças, e tu então…

—Jenny!

—Para que o queres negar? Olha que eu tenho a vaidade, e o orgulho tambem, de saber ler nos teus pensamentos. Ha muito o aprendi e tu mesmo me auxiliaste.

Carlos baixou os olhos e principiou a torcer machinalmente a corrente do relogio.

Desde este momento a victoria era de Jenny. Ella comprehendeu-o e proseguiu:

—Depois a imaginação, essa travêssa imaginação, que nós ambos conhecemos, pôz-se a trabalhar. Ella não podia resignar-se a ver terminar tão depressa o romance, que phantasiára tão longo, e lidou, e lidou, e apesar de te recolheres hontem mais cêdo, não durou a tua vigilia menos do que a d'aquella celebre noite do carnaval; não é verdade? Confessa. E o coração a dizer-te, muito baixo, que devias… que era mais generoso deixar acabar tudo alli, e a imaginação a crear difficuldades, a inventar deveres, a entreter-te de não sei que pontos de honra muito exigentes; e então o coração, o pobre coração, que cada vez ia perdendo mais terreno, a lembrar-te que pelo menos consultasses tua irmã, Charles, e a outra, a má, nem isso te concedeu; provou-te a vantagem de me occultares tudo! Tinha mêdo de que eu podesse dissuadir-te! E tu a obedeceres á imaginação, e a levantares-te, a partires, a procurares Cecilia, e a pedir-lhe um perdão de creança, que em outras circumstancias te faria rir, e a pobre menina a conceder-t'o, sem bem saber o que fazia. Confessa, Charles, confessa, a verdade d'isto.

Carlos não pôde disfarçar um sorriso, e, levando aos labios a mão que a irmã pousára na sua, murmurou: