Isto aconteceu com Carlos. Symptoma terrivel! Leu em uma especie de embriaguez um romance inteiro de Walter-Scott, e muito tempo depois ficou a pensar no que lera; não tanto nas bellezas, que, em todos os generos, abundam nas ainda menos afamadas obras do grande romancista, como na felicidade dos noivos; porque, nos ultimos capitulos dos seus romances, raras vezes Walter-Scott deixa de os unir sacramentalmente.
Á noite voltou Carlos a passar por casa de Cecilia. Havia luz na sala da frente, luz que só se percebia por uma entreaberta das portas interiores. Eram as horas do serão e do chá de José Fortunato.
Carlos saboreou um prazer indefinivel em observar aquella luz. Vão vendo os leitores experientes se não é de inspirar receios o estado do Carlos.
Em casa evitava Jenny; receiava-se d'ella; Jenny, pela sua parte, julgava prudente não provocar novas conferencias sobre o assumpto.
Se ella soubesse que já não era com estes meios brandos, que havia de vencer!
No primeiro domingo, depois d'estas scenas, Carlos que, com toda a diplomacia, soubera de Manoel Quentino ser a Cedofeita que elle e a filha costumavam ir á missa, rompeu com os deveres de protestante e aproximou-se da porta d'aquelle vetusto templo catholico, ás horas a que sabia dever terminar alli o officio divino.
Passeiava na alameda lateral com toda a resolução de se fazer d'esta vez notado.
Mas, ao saír a primeira gente da igreja, apoderou-se d'elle a costumada timidez, e, já com receio de ser percebido, foi encostar-se ao portão de ferro do cemiterio contiguo, por não ter tempo de ir mais longe.
Serviu o mal a inspiração;—mal e bem ao mesmo tempo; porque, ainda n'aquelle momento, havia no espirito de Carlos o mesmo antagonismo de aspirações, que era, havia dias, o seu estado habitual.
Coincidia com o receio de ser visto a vontade de ser descoberto. Não póde haver logica na expressão, quando falta ao objecto que se exprime.