—Ahi tem; e vá com Deus, mulher.
Mas a mendiga entendeu que não devia supprimir assim as competentes e diffusas formulas da sua gratidão.
—Ora nosso Senhor os faça muito felizes e os deixe viver muito tempo na companhia um do outro, já que tão bem os juntou! Coitadinhos! Eu hei de rezar muito ao Senhor para que os abençoe e os tenha a ambos na sua divina guarda. Adeus, meu senhor, adeus; adeus, minha senhora. Nosso Senhor Jesus Christo os ha de sempre ver do céo e dar-lhes a felicidade que desejam. Ora coitadinhos!… Padre nosso, que estaes no céo…
Carlos e Cecilia viram-a afastar-se e sorriram, sem olhar um para o outro, e sem saber bem o que dissessem. Voltou Manoel Quentino e nenhum lhe referiu o caso, que com certeza o faria rir.
Este silencio é, no meu entender, de maxima significação.
Carlos acompanhou Manoel Quentino e Cecilia até á modesta campa, sobre a qual um nome, uma data e muitas flores marcavam o logar, onde jazia a que os dois ainda então choravam com saudade. Ao chegarem alli, Cecilia ajoelhou e recolheu-se por algum tempo em oração piedosa; Manoel Quentino, de pé, encostado á grade, orava tambem.
O contagio d'aquella commoção apoderava-se da alma de Carlos. Não sabia elle igualmente o que era ser orphão de mãe?
Duas almas, que receberam, ainda em plena infancia, a precoce provação d'esta dolorosa experiencia, devem entrar mais rapidas em intelligencia de affectos. Ha um laço invisivel a prendel-as já.
Quando no templo, ou junto de uma campa, uma se enleva na oração, a piedade filial da outra adivinha todas as palavras d'aquella prece, resente todas as angustias d'aquella dor.
Calado, triste, fitou Carlos os olhos na sympathica figura de mulher que orava assim, e quasi se sentiu impellido a ajoelhar-se-lhe ao lado e a orar tambem.