Tudo era sombras na rua: para o lado do mar coloria-se o céo do rubor inflammado do crepusculo… e ninguem!

O coração de Cecilia principiou a ennevoar-se de vagos receios, que ella até fugia de definir.

Mas estas nevoas foram-se condensando em cerração, á medida que descia a noite, e Manoel Quentino sem apparecer! A imaginação de Cecilia começava já a lembrar-lhe mil escuras explicações d'aquella extraordinaria demora.

A boa rapariga não podia socegar.

Vinha á janella com esperanças de avistar o pae no principio da rua, e retirava-se para dentro outra vez, pezarosa e assustada porque o não via.

Fallava a Antonia, desejando ouvir d'ella alguma supposicão, que a tranquillisasse; mas a criada, tambem assustada com a demora do amo, longe de a animar, aterrava-a com as suggestões da sua fertil imaginativa.

—Olhem agora!—dizia ella—Não que uma demora assim! Eu nunca vi!…
Quem sabe lá? Não lhe fosse por ahi acontecer alguma!…

—O que lhe havia de acontecer, mulher? Você tambem!—disse Cecilia, tranzida de susto com esta vaga insinuação da criada.

—O que lhe havia de acontecer?—proseguiu esta—Ellas em qualquer parte se armam. Até na cama se quebra uma perna. Veja aquelle velho, que passava d'antes todos os dias por aqui para a alfandega. Então não escorregou um dia no degrausito da porta, que não tinha mais do que isto—e indicava uma mão travessa;—caíu, e de tal maneira, que no fim de oito dias estava enterrado.

Cecilia empallidecia só de ouvir estas palavras.