Elle sabia tudo!
Terminaram pois as lições, mas não terminaram com ellas as visitas de Carlos, como seria natural que acontecesse. Mudaram apenas de caracter aquelles serões.
Carlos era agora o que se encarregava da leitura das folhas, com grande mágoa de José Fortunato, que não podia encontrar na diversão metade do prazer que n'ella recebia, quando a leitura era feita por Cecilia.
De mais a mais, Carlos divertia-se muitas vezes á custa do velho. Sabendo de Manoel Quentino que elle era possuidor de varios papeis de credito, raro era o dia em que, no decurso da leitura, não improvisava noticias e insinuações, que faziam entrever uma imminente baixa de fundos e porventura uma banca-rota.
José Fortunato declamava então contra os governos presentes, passados e futuros, com toda a acrimonia que lhe era possivel.
Quando os dois velhos tratavam ás vezes alguma discussão acalorada, Carlos aproveitava a occasião de entrar com Cecilia em um dialogo, cuja indole era cada vez mais perigosa para o coração de ambos. E senão, ouçamos.
Cecilia trabalhava, certa noite, em uma camisa de panninho para o pae.
—Que nome se dá a isso que está a fazer?—perguntou Carlos, curvando-se sobre a costura.
—É uma camisa—respondeu Cecilia, sorrindo. Pois nem conhece!?
—Que é uma camisa sei eu; não perguntava isso; mas… essa costura em que está agora a trabalhar, como se chama?