Proseguiu a indicação da maneira de encher a factura e com isto terminou a lição.

Em seguida, serviu-se o chá, que n'aquella noite não soube a José
Fortunato, como de costume.

Manoel Quentino, apesar das suas impaciencias, estava, de si para si, espantado de tanto que sabia Carlos.

—Que esperteza de rapaz!—dizia elle para Cecilia, quando esta, depois de todos se haverem retirado, fazia engulir ao pae a ultima chavena de caldo d'aquelle dia e lhe arranjava os travesseiros para o somno da noite—Tem diabo! Como entende tão bem estas cousas de commercio, a que andou sempre estranho! Era capaz de enrodilhar outro, que não tivesse a experiencia, que eu tenho! Uma cousa assim! Parece até que adivinha! É até um peccado andar fóra da vida do negocio… Deem-lhe alguns annos de pratica, e verão o que d'alli sáe.

Cecília calava-se.

XXIII

DIPLOMACIA DO CORAÇÃO

A educação commercial de Carlos continuou e com os mais rapidos e auspiciosos progressos. Á segunda noite espantava elle Manoel Quentino, apresentando-lhe os lançamentos, que pela manhã fizera e nos quaes o experimentado guarda-livros nada teve que notar.

A custo pôde convencer o fogoso discipulo de que não convinha que elle proprio escrevesse nos livros geraes, onde era contra as praxes apparecer lettra de mais do que um individuo. Bastava, dizia o velho, e já não era pequeno serviço, que Carlos o auxiliasse no expediente e deixasse tudo preparado para que, ao terminar o seu impedimento, elle, Manoel Quentino, só tivesse a transcrever no Diario e no Razão as transacções operadas durante essa época.

No fim de tres ou quatro serões, Manoel Quentino já não tinha que ensinar mais ao discipulo.