—Ai, bem sei. O cunhado d'aquelle militar de quem dizem as más linguas…
—Tal e qual. Pois não sei se tem reparado no luxo com que se apresentam as filhas e a mulher. Ó santo Deus! Emfim uma cousa é ver, outra é dizer. Aqui ha dias passaram ahi todas e eu benzi-me e tornei-me a benzer! Não que nem a rainha póde luxar assim. Qual! Ora, veja a snr.ª Antoninha, o pae dizem que não ganha mais de trezentos mil réis por anno. Milagres não se fazem… O dinheiro não nasce no quintal…
—Deus sabe d'onde elle vem.
—Eu tambem sei alguma cousa, vamos lá. Sei a quem magoam muitas d'aqúellas grandezas. Olhe que a senhora d'elle tem chegado a pedir emprestado a uma rapariga, filha de uma amiga minha, que esteve lá a servir muitos annos. A rapariga, coitadinha, que se mata a trabalhar… porque ella hoje é engommadeira, teve vergonha de dizer que não, e adeus, minha vida.
—Tola foi; cá para mim é que elles vinham bem guiados.
—Por isso eu digo: a snr.ª Antoninha não é das que tem razão de queixa.
—Ai, não sou, não, senhora; isso não sou; graças a Deus.
—O passadio é bom?
—É bom, é, sim, senhora; lá n'isso não ha que dizer…
—O peior que alli tem é a prisão; pelos modos sáe poucas vezes. Tirante lá, aos domingos, o ir visitar o Senhor ao Carmo.