Carlos aproximou-se do leito.

A velha Kate, vendo chegar uma nova figura junto de si, fitou n'elle um olhar de expressão quasi selvagem e, depois de algum tempo, pôz-se a rir e a bater as palmas, com os modos infantis proprios d'aquelles estados de embecilidade.

—Olhem!… É elle!… é elle!… —dizia ao mesmo tempo, reparando cada vez mais em Carlos—Como veio para aqui?… Inda bem que vieste!… Agora sim!… Quero ver agora quem me fará mal?… Vem cá, Dick, vem cá!… Agora sim!…

E acenava-lhe para que se aproximasse do leito.

Carlos condescendeu.

—Vejam! vejam!—dizia a velha, passando as mãos pelos cabellos de Carlos—É outra vez o Dick, que eu conheci… Este sim!… Já não tem nenhuns cabellos brancos… Este sim… Eu bem dizia que havia de voltar. O outro não era verdadeiro… Agora já não receio esses malditos, que me teem aqui presa ha tanto tempo!… Que venham!… Tu não me has de deixar só com elles outra vez, Dick, não? Olha que me matam!

—Socega, Kate, socega—disse Carlos carinhosamente—Ninguem te quer fazer mal.

—É porque tu não sabes ainda o que elles me teem feito!… Olha; repara… Não vês o cadeiado que me pozeram aos pés?… Nem os posso mover… nem os sinto!… E agora… metteram-me aqui no peito um ferro… aqui… cá o sinto dentro…. Arde, como se estivesse em braza… E este laço?… não vês este laço, que me deitaram ao pescoço?… não vês como está apertado?… suffoca-me!… Ai!… ai!…

E respirando a custo, apertava com ancia, o braço de Carlos, que a segurava.

—Então, Kate, vê se descansas;—dizia elle—eu vou já mandar tirar-te tudo isso, que te afflige assim…