Cecilia andava contente aquella manhã.
O seu bom coração deixára-se repassar todo de alegrias, d'essas alegrias travêssas, agitadoras, de quem não quer reflectir no que as faz nascer; alegrias que, vindo á luz, gosam da luz como as creanças, as quaes a festejam com risos e cantares, ainda sem saudades do passado, nem incertos temores do futuro, a amargurarem-lhes tão ingenuo prazer.
Pobre rapariga! Mal sabia ella, que bem de perto a seguia a nuvem, que havia de assombrar-lhe o fulgor d'aquelle contentamento!
Antonia machinava em silencio contra ella. Á similhança da aranha, em traiçoeira emboscada, aguardava paciente que aquella buliçosa borboleta, que voava em volta de si, viesse prender as azas na sua enredada teia.
Cecilia demorava-se porém pouco tempo junto d'ella, e pouco tempo em toda a parte. Lembrava uma avezita prisioneira, quando, ao amanhecer de um dia de sol desanuviado, após longos de nuvens e de chuva, bate as azas, salta de poleiro em poleiro, esvoaça de encontro ás grades da gaiola, e ensaia de novo o canto, havia muito interrompido.
Occupada com os preparativos do que ella chamava a festa do pae, Cecilia não parava um momento. Descia ao quintal, para colher flores; escondia-se no quarto, para formar ramos, e com elles enfeitar as jarras; passava á sala de Manoel Quentino, para que a ausencia não fosse estranhada, e com o fim de dizer ao pae algumas palavras de affecto; depois voltava ao quintal e sempre com a ligeireza e agilidade, proprias d'aquelle corpo flexivel e elegante e d'aquella nervosa compleição.
De quando em quando, chegava tambem á janella, esperançada em que um feliz acaso lhe satisfizesse não sei bem que secretas aspirações, as quaes talvez a leitora adivinhe.
Foi em uma d'estas occasiões, que Antonia, encontrando-se com ella no corredor, lhe disse á queima-roupa:
—Já esta manhã vi o snr. Carlos.
Cecilia perturbou-se; mas inquiriu, affectando indifferença: