Carlos retirou-se para a parte assombrada da rua e esperou. A janella abriu-se, e o luar, batendo em cheio do lado d'ella, illuminóu a suave figura de Cecilia.

Carlos permaneceu immovel.

Cecilia estava só; e quem, se não ella, tinha n'aquella casa imaginação bastante para se seduzir com os encantos de uma noite assim?

Recostando-se á janella, a filha de Manoel Quentino conservava-se tambem immovel. Havia tanta languidez no reclinar da cabeça sobre a mão, tanta belleza e poesia n'aquella figura pallida, que a phantastica luz do luar mais pallida fazia, que, ainda sem ter a imaginação de Carlos, era possivel quasi acreditar por momentos ser aquillo uma apparição de noite de estio, como, nas suas lendas, as concebe a phantasia popular.

Que lisongeira voz segredou ao ouvido de Carlos, que era n'elle que aquella mulher pensava? Vaidades de coração, e tantas vezes mentirosas illusões dos desejos, quem ha ahi que possa gabar-se de nunca vos ter experimentado?

Cecilia foi subitamente despertada d'aquelle quasi sonho, em que parecia arrebatal-a a claridade do luar, por a voz de alguem que lhe pronunciava o nome por baixo da janella.

Cecilia reconheceu, estremecendo, aquella voz. Era a de Carlos.

—Ó snr. Carlos!—exclamou ella, sobresaltada e fazendo um movimento instinctivo para retirar-se.

—Escute—disse Carlos—escute-me. São poucas palavras só as que tenho a dizer-lhe. Vim aqui sem esperança de lhe fallar. Contento-me ha muitos dias com menos. Ver as janellas da casa em que mora tem-me bastado. Mas, uma vez que o acaso a trouxe ahi, deixe-me não perder a unica occasião que tenho agora para lhe dizer o que desejava…

—Mas bem vê que…