—Charles, quando d'antes tinhas alguma cousa que te affligisse, confiavas-m'a. Por que já o não fazes agora?

—Jenny, concede-me algum tempo. Talvez, dentro em pouco, eu tenha muito que te dizer e muitos conselhos a pedir-te.

Foi a resposta que obteve.

Carlos não faltou á palavra que dera a Manoel Quentino.

Dois dias se seguiram a este sem que a vizinhança do guarda-livros tivesse que reparar nas assiduas passagens de Carlos por aquella rua, nem a snr.ª Antonia de soffrer a contrariedade das suas visitas.

Mas, se na sobredita vizinhança houvesse quem depois da meia noite estivesse acordado, poderia ás vezes ver passar um homem por diante das janellas fechadas d'aquella casa, e olhal-as como se esperando que ellas a final se cansassem de sua desesperadora discrição.

Taes eram já as proporções que havia tomado em Carlos o que Jenny chamára uma phantasia!

Porque esse homem era elle.

Chegára-se a maio. Era uma d'estas noites de luar, serenas, tepidas, perfumadas, em que um instincto irresistivel nos leva a procurar as arvores, a escutar de perto o murmurio das fontes. Abafa-se nas salas.

Demorára-se Carlos d'esta vez diante das janellas de Cecilia em uma d'aquellas contemplações, de que só os espiritos frios podem ter animo de zombar, quando certo rumor na pequena janella de grades, que se abria no muro do quintal de Manoel Quentino, lhe chamou a attenção.