—Abre, abre, Carlos; por ordem superior!

Carlos teve ainda alguns momentos de hesitação.

A vozeria redobrava; repetiam-se, com mais violencia, as pancadas na porta.

Resolveu-se emfim a abril-a.

Entraram. Eram os principaes companheiros dos seus passados divertimentos, muitos dos quaes já encontramos n'aquelle jantar da Aguia d'Ouro. Fartos de o aguardarem todas as noites, sem que em nenhuma de tantas o vissem apparecer, tinham resolvido procurar esse transfuga dos seus arraiaes.

Operou-se completa mudança de scena, digna, pela celeridade, de um tablado inglez.—Em poucos momentos, um bando de rapazes invadiu o quarto; e cêdo, cadeiras, mesas, sofás e leito foram occupados por elles, como por um enxame de abelhas.—Tudo era desordem minutos depois.

—Então que é isto? que é isto? Que quer dizer esta mysteriosa reclusão?—perguntava um, estendendo-se no sofá, em postura digna do sultão.

—Como se ha de explicar este eclipse total de um dos mais luminosos astros da nossa brilhante pleiade? A Venus do proscenio de S. João chora por ti; o genio que preside á feitura das costelletas da Aguia esmorece; no Guichard a deusa do paradoxo lamenta um dos seus mais fervorosos servos; é uma serie de calamidades por ahi além. Como as explicas tu?—Isto dizia outro, vasando meio vidro de curious essence sobre o fino lenço de bretanha.

—Expliquem-as como quizerem—respondeu Carlos, sentando-se com enfado, que não procurava encobrir.

—Ora que tem isso que explicar? disse o do sofá—Não fallaram ahi em eclipses? As minhas recordações de lyceu dizem-me que o eclipse é em geral o resultado da interposição de um astro entre nós e o eclipsado. Procurem aquelle que nol-o tem occulto…